Na recepção de um hotel de Girona, no nordeste da Espanha, os nomes dos povos indígenas eram chamados um a um. Yawanawá, Puyanawa, Nukini, Shawãdawa, Shanenawa, Huni Kuin, Noke Koi, Kuntanawa, Tukano, Omágua Kambeba, Marubo, Kaingáng, Pataxó, Potiguara. As respostas vinham de diferentes pontos do salão, confirmando que todos estavam ali. Antes do início do Fórum Mundial da Ayahuasca, na manhã de sexta-feira, 11, era preciso reunir as delegações, repassar o roteiro e organizar a caminhada até o local do evento.
Pouco depois, os maracás começaram a soar do lado de fora. Representantes de cerca de 30 povos, vindos das Américas, da Oceania e de outras partes do mundo, seguiram juntos pelas ruas da cidade. No Palau de Congressos de Girona, a poucos minutos dali, mais de 1.800 participantes de diversos países aguardavam a chegada das comitivas.
Os cantos entraram antes de qualquer outra coisa. Abriram caminho pelo saguão, avançaram pelo auditório e conduziram as lideranças, em fila, até o centro do palco. Parte do público se levantou. Vieram os aplausos, que voltariam depois de cada canto e de praticamente todas as falas indígenas na primeira parte da manhã.
“Depois de uma cantoria dessa, a gente não tem nem muito o que falar”, disse Shãtsi Piyãko, artista e guardiã de conhecimentos culturais do povo Ashaninka, responsável pela mediação da abertura. Ao dar as boas-vindas, ela chamou a atenção para a composição pouco usual da plateia, formada por povos indígenas, detentores de heranças espirituais, pesquisadores, profissionais da saúde e integrantes de organizações da sociedade civil.
Maracás pelas ruas de Girona
A primeira edição do Fórum acontece de 11 a 13 de setembro e se apresenta como um “encontro entre mundos”. Durante os três dias, o programa combina debates sobre ciências ancestrais, saúde mental, neurociência, direitos indígenas, propriedade intelectual, regulamentação, meio ambiente e usos terapêuticos da ayahuasca. Há também cinema, exposições, concertos e sessões dedicadas à relação entre sistemas médicos ocidentais e indígenas.
O encontro resulta de uma aproximação entre o Conselho de Líderes Espirituais Indígenas, representado pelo Instituto Yorenka Tasorentsi, e o Iceers, organização sediada na Espanha que atua com plantas psicoativas e medicinas indígenas. A parceria procura transformar em ação conjunta trajetórias que durante anos caminharam em paralelo e, algumas vezes, em tensão. Um de seus compromissos declarados é colocar lideranças indígenas no centro das decisões sobre o futuro da ayahuasca, hoje consumida, pesquisada e comercializada muito além dos territórios onde seus conhecimentos foram preservados.
Diretor-executivo e fundador do Iceers, Benjamin De Loenen acompanhou da plateia a entrada das delegações. Disse ter visto ali algo que tem faltado ao mundo. “Esperança.” Para ele, as pessoas reunidas no palco não deveriam ser compreendidas apenas como indivíduos. “Elas são territórios. São raízes profundas de sistemas culturais de conhecimento, de ciências e tecnologias sobre como a vida está interligada.”
De Loenen lembrou que a organização do encontro atravessou um verão de grandes incêndios na Espanha e afirmou que o Fórum deve ser entendido como uma etapa de um processo mais longo. “Isto não é apenas um evento ou uma conferência. É um pequeno passo.” O objetivo, disse, é reconhecer os saberes indígenas como ciências construídas ao longo de gerações e proteger os territórios nos quais esses conhecimentos estão enraizados.
Do palco, o líder Ashaninka Benki Piyãko, presidente do Instituto Yorenka Tasorentsi e um dos criadores das Conferências Indígenas da Ayahuasca, ampliou o chamado. “Agora é tempo de pensarmos juntos o futuro deste planeta, porque estamos vendo um planeta morrendo”, afirmou. Rios, terras, animais e seres humanos, continuou, estão sendo envenenados por uma construção feita pela própria humanidade.
Para Benki, a presença das delegações na Europa não significa apenas compartilhar conhecimentos sobre uma bebida ou defender uma prática espiritual. Trata-se de formar uma aliança capaz de interferir nas escolhas que determinarão o futuro das próximas gerações. “Se nós não sonharmos juntos, vamos perder muito mais da consciência que ainda está viva.”
Territórios sob ameaça
A linguagem de esperança e conciliação conviveu, durante a abertura, com referências frequentes à violência. Algumas das lideranças que atravessaram o Atlântico deixaram para trás comunidades pressionadas por narcotraficantes, garimpeiros, madeireiros e outros grupos envolvidos em economias ilegais. “Alguns vivem agora invasões e ameaças de morte em seus territórios”, disse De Loenen.
O alerta é especialmente concreto para os Ashaninka do Rio Amônia, no Acre. Em 6 de julho, ao menos cinco homens armados e falando espanhol entraram na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia à procura de lideranças. O episódio faz parte de uma escalada do crime organizado na fronteira entre Brasil e Peru, onde o narcotráfico se associa à exploração ilegal de madeira, à mineração e à disputa por rios e trilhas usados como corredores clandestinos.
Benki estava entre as lideranças que foram a Brasília denunciar o ataque e entregar às autoridades um dossiê com cerca de uma década de registros. O documento foi produzido pela Comissão Transfronteiriça Juruá-Yurúa-Alto Tamaya, articulação que reúne 35 territórios e 14 povos indígenas em aproximadamente 3,5 milhões de hectares entre o Acre e a região peruana de Ucayali.
É desse cenário que parte a reivindicação de que não se pode separar os conhecimentos indígenas das condições necessárias para mantê-los vivos. Falar da expansão mundial da ayahuasca, nessa perspectiva, exige discutir também proteção territorial, autonomia, propriedade intelectual e participação nas decisões científicas, jurídicas e econômicas relacionadas à bebida.
Nixiwaka Biraci Brasil, liderança espiritual e política do povo Yawanawá e outro criador das Conferências Indígenas da Ayahuasca, falou das marcas deixadas por séculos de contato. “Se você perguntar a todos os povos indígenas aqui, nós só temos massacre, violência, discriminação e perseguição em nossos territórios”, disse. Em seguida, apresentou a viagem a Girona como uma tentativa de virar a página sem apagar aquilo que está escrito nela.
“Saímos dos nossos territórios para anunciar que nós, povos originários, queremos construir uma nova aliança neste novo tempo”, afirmou Nixiwaka. “Toda a nossa ciência espiritual, nossa tecnologia, nossa cultura e nossas medicinas ancestrais estão prontas para um novo diálogo.”
Um encontro entre soberanias
A abertura ocorreu em 11 de setembro, Dia Nacional da Catalunha. Coube à vice-prefeita de Girona, Gemma Geis, receber oficialmente as delegações. Ela começou a falar em catalão e logo explicou que traduziria a própria intervenção para o espanhol, facilitando o trabalho dos intérpretes do encontro internacional.
Geis aproximou a defesa catalã da língua, da memória, da cultura e da autodeterminação das reivindicações levadas pelos povos indígenas à cidade. Fez a ressalva de que são histórias diferentes, mas disse reconhecer pontos de contato no vínculo com o território e no direito de cada povo escolher seu futuro e decidir como deseja compartilhar seus conhecimentos com o mundo.
“Como moradores de Girona e como catalães, sentimos uma conexão com a defesa das culturas, dos saberes, do patrimônio e da soberania de todos os povos”, afirmou. A vice-prefeita também lembrou que a cidade havia recebido, em 2019, uma conferência internacional sobre ayahuasca. Desta vez, agradeceu aos organizadores por abrirem parte da programação aos moradores, incluindo a exibição de um documentário para mais de 200 pessoas e o plantio de uma árvore como legado social do encontro.
No palco, a alternância entre idiomas, traduções, cantos e silêncios expôs uma das questões que acompanharão o Fórum até domingo. A “nova aliança” anunciada pelos organizadores dependerá de saber quem fala, quem traduz, quem é ouvido e quem participa das decisões quando conhecimentos indígenas entram em laboratórios, tribunais, clínicas e mercados globais.
A anciã espiritual Mona Polacca, dos povos Havasupai, Hopi e Tewa, do Arizona, nos Estados Unidos, encerrou o primeiro painel olhando para o encontro como parte de uma história ainda em curso. Integrante fundadora do Conselho Internacional das Treze Avós Indígenas, ela falou de uma reunião entre parentes cujas conexões espirituais antecedem aquele auditório.
“No futuro, vou dizer à minha família que eu estava aqui quando todos nos reunimos”, afirmou. Para Polacca, foi um momento histórico. Do lado de fora, Girona celebrava sua própria memória e soberania. Dentro do Palau, povos que durante muito tempo foram tratados como objetos de estudo reivindicavam o direito de apresentar seus conhecimentos, definir seus limites e participar da escolha dos caminhos que virão.
O Fórum Mundial da Ayahuasca prossegue até domingo, 13 de setembro, no Palau de Congressos de Girona. Mais informações e a programação completa estão disponíveis em https://www.ayahuasca2026.com/.
A Psicodelicamente acompanha o Fórum Mundial da Ayahuasca in loco. Cobertura completa no site, nas redes sociais da revista e no blog na CartaCapital.
A cobertura conta com o apoio de LIS, APB, Camp Educ, Paula Siqueira, Gabriela Dworecki Domingues, Louise Ferri, Cuidado Psicodélico e CEPA. O conteúdo editorial é de responsabilidade exclusiva da Psicodelicamente.




