Nos almoços de domingo da família Piacentini, no início dos anos 1970, a conversa costumava girar em torno do que havia acontecido na sessão de ayahuasca da noite anterior. Elza ouvia tudo calada, cética. Imaginava que os efeitos relatados pelos parentes fossem fruto de sugestão. Foi o próprio irmão, Marinho Piacentini, quem a convenceu a experimentar durante uma temporada no sítio da família, mais para lhe fazer companhia do que por curiosidade genuína. A sessão mudaria o rumo da vida dela.
Elza Piacentini (1946-2021) se tornou uma das primeiras mulheres a dirigir um grupo de ayahuasca em São Paulo. E ocupar esse lugar, num universo religioso dominado por homens, teve um preço. “Ela foi realmente uma pessoa bem desbravadora e corajosa”, diz sua filha, a psicóloga Kenia Piacentini, sobre a resistência que a mãe enfrentou. Kenia é autora da biografia “Sigo Seus Passos: Ouço Sua Voz” (Amare Editora, R$ 80), que será lançada no próximo domingo, dia 13, na Livraria da Vila, em Pinheiros.
A ayahuasca é uma bebida de propriedades psicodélicas, preparada a partir de duas plantas amazônicas, usada há centenas de anos por povos indígenas da região. No Brasil, ao longo do século 20, seu uso ritual migrou também para os centros urbanos na forma de religião. A UDV (União do Vegetal) e o Santo Daime são as duas vertentes mais conhecidas. Elza faz parte dessa história.
Seu irmão, Marinho, tinha conhecido a ayahuasca pouco antes, em Manaus, através dos artistas Helena Vilaça e Jovelty Archângelo, e foi um dos responsáveis por trazer o chá para São Paulo, com autorização dos mestres da UDV, como são chamados os dirigentes da religião. Elza se tornaria frequentadora assídua da UDV paulistana por quase vinte anos antes de fundar seu próprio grupo.
Foi na véspera do Natal de 1991 que ela reuniu amigos e familiares para o primeiro preparo do que se tornaria o seu grupo. O Centro de Desenvolvimento Integrado Luz do Vegetal, dissidência da UDV, passou a unir os ensinamentos de José Gabriel da Costa, o Mestre Gabriel (1922-1971), fundador da religião, a técnicas de autoconhecimento aprendidas com outros mestres, entre eles o guru indiano Osho e o místico armênio-grego Gurdjieff.
O livro mistura biografia, mensagens e ensinamentos da mãe, e chega às livrarias dividido em quatro partes, com um perfil biográfico, mensagens da Elza, ensinamentos proferidos em sessões de ayahuasca e um posfácio com depoimentos de quem conviveu com ela.
Ruptura com a UDV
A ruptura com a UDV, segundo o relato de Kenia, começou com um punhado de fitas cassete. Um amigo próximo da família havia gravado palestras de Osho durante uma estadia na Índia e as trouxe para Elza traduzir do inglês. Marinho, encantado com o conteúdo, resolveu apresentar as fitas aos mestres da UDV em Manaus, na expectativa de que também se interessassem.
Não foi bem o que aconteceu. Os dirigentes entenderam o gesto como sinal de insatisfação com os ensinamentos de Mestre Gabriel. Quando um mestre de Porto Velho veio puni-lo pessoalmente, parte do núcleo protestou por carta à sede e o núcleo inteiro acabou punido também. O episódio azedou de vez a relação e abriu caminho para o grupo que Elza fundaria anos depois.
Dentro da UDV, aliás, Elza não poderia ocupar o lugar de dirigente. A Mestre Pequenina, Raimunda Ferreira da Costa (1928-2016), esposa de Mestre Gabriel e uma das fundadoras da religião, foi a única até hoje.
Kenia ressalta a resistência que a mãe enfrentou. “Depois que o Mestre Gabriel faleceu, não existiu mais nenhuma outra mulher mestre na UDV”, diz Kenia. Como o grupo de Elza nasceu de uma dissidência, a recepção inicial do grupo religioso também foi hostil, “as pessoas lá não gostaram nada, de início”. Com o tempo, segundo a autora, o trabalho e a dedicação da mãe conquistaram respeito.
Osho
A ida à Índia, em 1977, para conhecer Osho pessoalmente, também marcou a trajetória de Elza. Ela se mudou para o país com os quatro filhos, viveu no ashram do mestre indiano e chegou a atuar como sua tradutora oficial no Brasil por vários anos. Foi dali que vieram práticas que Elza incorporaria ao trabalho do CDI ao lado do ritual com ayahuasca, unindo duas tradições que, para ela, apontavam na mesma direção.
Kenia descreve seu papel na escrita do livro como o de uma “narradora-testemunha”. “Como psicóloga, vivenciei todos os resultados dessas práticas que ela incorporou ao trabalho terapêutico. E, sim, continuo seguindo seus passos e ouvindo sua voz.”
O posfácio da obra reúne depoimentos de pessoas próximas a Elza, entre elas seu enteado, o ator Alexandre Borges. “Trago, na minha lembrança de criança, a imagem de uma mulher doce e criativa, que me acolheu com muito amor e carinho”, escreveu ele. “Tenho certeza de que [o livro] tocará profundamente os leitores, trazendo coragem e harmonia para todos nós.”
O lançamento em São Paulo terá pocket show de Marie Gabriella e bate-papo com a autora e participação do ator Alexandre Borges.

SERVIÇO
SIGO SEUS PASSOS: OUÇO SUA VOZ Quando: dom. (13), das 16h30 às 19h30 Onde: Livraria da Vila – r. Fradique Coutinho, 915, Pinheiros, São Paulo Quanto: R$ 80 (livro)




