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A ayahuasca tem dono?

Fórum Mundial da Ayahuasca coloca, pela primeira vez, os povos originários na cabeceira da mesa do debate internacional

Carlos Minuano para a Psicodelicamente

Foto: Cocares no Festival Indígena União dos Povos em Arujá/Psicodelicamente

A Psicodelicamente acompanha o Fórum Mundial da Ayahuasca desde o anúncio oficial de sua realização, no Fiup, em maio de 2025, quando ainda era pouco mais do que uma ideia e uma data na agenda. Cobrimos o Festival Indígena União dos Povos, em Arujá (SP), onde lideranças de diferentes etnias discutiram, em rodas de conversa e cerimônias, os limites éticos do uso da ayahuasca fora de seus contextos tradicionais.

Na ocasião, indígenas, pesquisadores e psiquiatras debateram os riscos da apropriação científica dos saberes da floresta. A ativista Txai Suruí encerrou o evento com um manifesto por justiça climática e protagonismo indígena.

No festival em Arujá, a Psicodelicamente coproduziu com a Bari Filmes e o Fiup o curta-documentário Manifesto União dos Povos, que traz um extrato de muitos temas em pauta no fórum. Entre eles, o protagonismo indígena e os saberes tradicionais como resposta às urgências do nosso tempo. Dirigido por Renato Libanoro (Natorê) e codirigido por este editor e pelo indígena Xinã Yawanawá, o filme teve apoio do LIS (Lar e Integração do Ser).

O curta reúne, entre outras, as vozes de Txai Suruí, Célia Xakriabá, Ninawa Huni Kui, Joenia Wapichan e do curandeiro peruano Randy Gonzales, que descreve as plantas da Amazônia como professoras. A mesma relação entre conhecimento tradicional e natureza que está no centro do debate em Girona. Exibido no Brasil, na COP30, em Belém, e na Espanha, no Festival Seda, da Mídia Ninja, em Valência, o curta ecoou o mesmo alerta que agora ganha novamente palco internacional no fórum.

Cartaz do curta Manifesto União dos Povos / Divulgação

Foi ali, também em maio, no Fiup, que o indigenista Jairo Lima anunciou publicamente a realização do Fórum, um encontro inédito, organizado pelo Instituto Yorenka Tasorentsi, organização ashaninka presidida por Benki Piyãko e representando a Conferência Indígena da Ayahuasca, em parceria com o Iceers (International Center for Ethnobotanical Education, Research and Service), organização espanhola dedicada à pesquisa e educação sobre plantas de uso tradicional.

Na ocasião, Lima destacou que o evento pela primeira vez reuniria representantes de diferentes bioculturas, termo que o indigenista fez questão de pôr em circulação, propondo uma perspectiva mais panorâmica sobre os contextos indígenas que envolvem ayahuasca, peiote, iboga, cogumelos, e propondo uma agenda comum de proteção territorial e cultural.

A parceria entre as duas organizações carrega uma história de tensões. E também de desconforto diante de espaços de decisão sobre a ayahuasca historicamente ocupados por atores de fora desses povos. Em 2016, na segunda Conferência Mundial da Ayahuasca, promovida pelo Iceers em Rio Branco, lideranças indígenas relataram poucos minutos de fala durante o evento, o que resultou numa carta aberta dos povos indígenas do Acre.

A articulação por um espaço próprio de discussão, no entanto, já vinha amadurecendo entre as lideranças havia anos. A Conferência de 2016 não deu origem a esse movimento, mas coincidiu com o momento em que ele se materializou. No ano seguinte, foi realizada a primeira Conferência Indígena da Ayahuasca, na terra do povo Puyanawa, em Mâncio Lima (AC), proposta apresentada por Benki Piyãko a outras organizações indígenas do Acre.

A ligação com Girona também já estava fechada antes do anúncio oficial. Em janeiro de 2025, reunidos na Aldeia Sagrada do povo Yawanawá, no Acre, para a quinta Conferência Indígena da Ayahuasca, coordenada pelos Institutos Yorenka Tasorentsi e Nixiwaka e pela Cooperativa Yawanawa, os povos participantes já indicavam o Encontro Mundial da Ayahuasca, na cidade medieval do leste da Espanha, como o próximo passo do movimento. A carta final do encontro sinalizava a pauta central que seria colocada em debate. O documento repudia “toda forma de comercialização da ayahuasca que formaram um mercado global fora dos limites éticos”.

Em outubro, no Psychedelic Talks, primeiro evento presencial da Psicodelicamente, o tema voltou à mesa com a presença de Jairo Lima e da jornalista Caroline Apple, colunista do Brasil de Fato e colaboradora do Yorenka na comunicação do fórum. E, desta vez, também com a participação de Raine Ashaninka, vice-presidente do Instituto Yorenka, e de outras lideranças indígenas do Acre.

Agora, a Psicodelicamente se prepara para cobrir o Fórum in loco, em um momento de pressões alarmantes.. Reportagem recente, escrita por esse jornalista, mostrou que a expansão global da ayahuasca já pressiona as próprias plantas usadas em seu preparo, o cipó caapi e a chacrona, com sinais de escassez em partes da Amazônia, e que a cadeia que leva a bebida da floresta a mercados internacionais opera, em grande parte, sem transparência ou fiscalização.

O cenário reflete uma tensão que atravessa todo o campo psicodélico. Segundo reportagem publicada pela revista Science em 2023, o mercado global de psicodélicos saltou de US$ 3,8 bilhões em 2020 para uma projeção de US$ 11,82 bilhões até 2029. Crescimento que, para pesquisadores citados pela publicação, já avançava sem incluir de forma equitativa as comunidades indígenas cujo conhecimento sustenta esse mercado.

Essa projeção, feita antes da guinada regulatória norte-americana, pode hoje estar bem aquém da realidade. Em 18 de abril de 2026, o presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva destinando US$ 50 milhões à pesquisa de terapias psicodélicas e determinando que a FDA acelere a análise desses tratamentos, com destaque especial para a ibogaína, substância sintetizada a partir da planta iboga, considerada sagrada na tradição africana Bwiti, hoje também usada no tratamento de dependência química em clínicas brasileiras.

Dias depois, a agência já havia concedido vouchers de prioridade regulatória a três programas com psilocibina e metilona (substância sintética quimicamente próxima ao MDMA, estudada como possível alternativa a ele). Em 14 de julho de 2026, a FDA abriu formalmente, com publicação no Federal Register, uma consulta pública sobre o uso terapêutico futuro de medicamentos psicodélicos administrados em “ambientes supervisionados e de apoio”.

Contribuições escritas podem ser enviadas por qualquer pessoa ou organização até 5 de outubro, inclusive de fora dos Estados Unidos (a agência não exige cidadania, residência ou sede no país). Uma audiência pública sobre o tema, ainda por acontecer, está marcada para 14 de setembro, um dia após o encerramento do Fórum, mais uma etapa importante de um processo que caminha, para muitos críticos, mais rápido do que o debate sobre a origem indígena dessas plantas e fungos.

Terra Indígena Kampa do Rio Amônia / Ashaninka Apiwtxa

Levantamento do ADF (Ayahuasca Defense Fund), ligado ao Iceers, já documentou cerca de 500 casos de apreensão e detenção envolvendo plantas tradicionais em 47 países na última década. Entre os detidos, muitos indígenas em trânsito.

Enquanto o mercado tenta transformar a ayahuasca em um medicamento convencional, os povos que a guardam seguem, ao mesmo tempo, na mira do avanço do crime organizado sobre a Amazônia. Reportagem também assinada por este jornalista revelou que o território Ashaninka, no Acre, vive hoje um duplo cerco. De um lado, rotas de narcotráfico peruanas avançando pelos rios que cruzam a fronteira, do outro, a presença do Comando Vermelho dentro da própria Reserva Extrativista do Alto Juruá, confirmada pelo ICMBio.

Em julho, homens armados invadiram a aldeia Apiwtxa atrás de lideranças indígenas, do mesmo povo que, doze anos antes, viu quatro parentes peruanos assassinados na região de Ucayali a caminho de uma reunião no território.

É diante desse cerco que o Fórum Mundial da Ayahuasca ganha relevância. Diferentemente do que pode parecer à primeira vista, está longe de ser mais um evento global sobre psicodélicos, ou mais uma edição da conferência global organizada pelo Iceers. Trata-se de uma iniciativa pioneira, liderada por indígenas, que mira reequilibrar quem tem assento à mesa do debate internacional. Cobrir esse processo, antes, durante e depois de Girona, é, para a Psicodelicamente, uma extensão natural do compromisso editorial que nos trouxe até aqui.

 


*****A cobertura do Fórum Mundial da Ayahuasca conta com o apoio do LIS (Lar e Integração do Ser), APB (Associação Psicodélica do Brasil), Camp Educ, Paula Siqueira, Gabriela Dworecki Domingues, Louise Ferri, Cuidado Psicodélico e CEPA (Centro de Estudos Psicodélicos Aplicados). O conteúdo editorial é de responsabilidade exclusiva da Psicodelicamente. 

Fotos Girona 2026

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