“Por que falar de Trump e psicodélicos?”, “que notícia complicada”, “importante falar que Peter Thiel é financiador de pesquisas sobre psicodélicos”, “coisa boa para o mundo certamente não é”, “por que destacar o líder nazifascista nesta matéria?”. Esses foram apenas alguns dos comentários e mensagens que recebi após publicar uma matéria no blog da Psicodelicamente na CartaCapital sobre o (inesperado) anúncio de apoio de Trump aos psicodélicos.
Não costumo responder comentários. Até porque, se fizer isso, não vai me sobrar mais tempo para nada nesta vida. Mas, pelo volume das mensagens recebidas (e até de alguns emoticons de nojo, vômito etc.), achei que ficaria mais fácil responder por meio de um artigo, expondo minha opinião mesmo. Ou seja, infelizmente, vou falar mais uma vez de Trump. Não que eu queira.
Entendo todas as provocações, críticas e questionamentos. Acho que a maioria é válida. Ou melhor, quase todas. Algumas são pura bobagem. Mas creio que muitas partem de um equívoco de base: a confusão entre jornalismo e ativismo, e entre o papel de jornalista e o de militante. São campos diferentes, embora às vezes dialoguem.
No jornalismo, a primeira obrigação é com o fato relevante, de interesse público. E o fato, neste caso, é que o presidente dos Estados Unidos anunciou uma medida que pode impactar pesquisas, regulações e mercados ligados aos psicodélicos no mundo inteiro. Para o bem e para o mal. Gostemos ou não dele, quem ocupa aquele cargo produz fatos com repercussão global. Ignorar isso não enfraquece Trump, nem o torna menos perigoso. Apenas empobrece a cobertura.
Também acho que esconder o nome dele seria um erro estratégico. Perguntaram por que eu não escrevi apenas “governo americano”. É simples: o nome Trump chama atenção, atrai leitura e funciona como porta de entrada para um tema complexo e importante. Trocando em miúdos, é uma isca jornalística para levar mais gente a ler sobre ibogaína, psicodélicos, regulação, seus benefícios e riscos.
Ao mesmo tempo, vale notar que eu não tratei Trump como autoridade no assunto. Isso não seria possível. Tampouco reproduzi nenhuma fala dele como se tivesse algum valor técnico (porque não tem). Pelo contrário: trouxe quem realmente entende do tema, o médico Bruno Rasmussen, com décadas de experiência clínica em ibogaína, para analisar o impacto do anúncio, em especial para o Brasil. Ou seja, usei o fato político, mas, modéstia à parte, entreguei conteúdo qualificado.
Outra questão importante: esse movimento pode avançar por caminhos perigosos. Pode haver captura corporativa, lobby, oportunismo, especulação financeira e apagamento de saberes tradicionais. Justamente por isso esse processo precisa de cobertura jornalística séria desde já. Melhor não ignorar. Jornalismo também serve para vigiar processos antes que eles se consolidem e deem merda.
Perguntaram até sobre Elon Musk, por que dele eu não falei. Sinceramente, o envolvimento do bilionário dono da plataforma X com psicodélicos nunca me pareceu, até aqui, um fato com densidade jornalística suficiente para uma pauta (ao menos minha). Há diferença entre curiosidade pop e decisão institucional com potencial de mudar políticas públicas. O anúncio de Trump entra na segunda categoria.
Em resumo: citar Trump não é endossá-lo. É reconhecer que figuras, ainda que detestáveis, também produzem fatos relevantes, de interesse público. E cabe ao jornalismo contextualizar, criticar, investigar e analisar o sentido desses fatos.
Quem quer lucrar com a expansão da mente?
Conforme respondi em um comentário no post sobre a matéria no perfil da Psicodelicamente no Instagram, há evidentes sinais de interesse de muita gente estranha (além do próprio Trump e da elite tecnológica dos EUA) no campo psicodélico, inclusive de investidores próximos ao universo do já citado Peter Thiel (bilionário do Vale do Silício e aliado de Trump). Claro que o mercado está de olho em patentes, clínicas, biotech e em uma indústria bilionária em formação. Seria ingênuo imaginar que o dinheiro não pesa nesse movimento.
E também faz sentido desconfiar quando figuras próximas ao trumpismo abraçam subitamente uma agenda que por décadas foi marginalizada e criminalizada. Em política (e na vida) quase nunca existe gesto desinteressado. Nem almoço grátis.
Dito isso, a história dos psicodélicos mostra que eles costumam escapar ao controle de quem tenta capturá-los. Essas substâncias já passaram por usos oportunistas, pesquisas militares, experiências nada éticas e projetos de poder, inclusive em contextos sombrios do século 20 e depois em programas de inteligência durante a Guerra Fria.
Ainda assim, sobreviveram a isso tudo e seguiram produzindo outras consequências: abriram caminhos na psiquiatria, influenciaram cultura, espiritualidade, crítica social e novas visões sobre saúde mental.
Talvez este seja mais um capítulo desse paradoxo. Interesses econômicos certamente existem, mas não esgotam o que pode emergir daí. Se a atual onda ajudar a derrubar o entulho ideológico da chamada “guerra às drogas”, já vamos sair no lucro, concordam?
E vale lembrar que boa parte do estigma global sobre psicodélicos foi impulsionada justamente pelos Estados Unidos ao longo de décadas. Quem sabe a mesma potência que ajudou a interditar o tema agora contribua, ainda que por razões questionáveis, para reabrir as tais portas da percepção. A história está cheia de avanços que nasceram de motivações contraditórias.
No fim, o destino dos psicodélicos talvez dependa menos de Trump, Thiel ou bilionários em geral e mais de pesquisadores sérios, pacientes, comunidades tradicionais, jornalistas e da sociedade civil abrindo, nos dentes e na unha, os rumos desse processo. Vai saber…





