Entre 12 e 14 de novembro de 2025, a UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) sediou a nona edição do Conacir, Congresso Nacional de Ciência da Religião, principal encontro acadêmico brasileiro da área. O evento reúne pesquisadores, estudantes e profissionais para discutir temas ligados às diferentes abordagens da ciência da religião, incluindo religião e sociedade, espiritualidades, epistemologias, ecologia, políticas públicas, entre outros.
A edição deste ano, com foco em ecologia e sustentabilidade, reuniu pesquisadores, lideranças religiosas e pensadores de diferentes áreas. A conferência de abertura foi ministrada por Leonardo Boff, referência mundial na reflexão sobre religião e ecologia e um dos nomes centrais da Teologia da Libertação.
Ao longo da programação, minicursos e palestras abordaram temas como decolonialidade, ecoancestralidade e ecofeminismo, com participações de Ivone Gebara, Nancy Cardoso, Arlete Pinheiro, Marta Ferreira D’Oxum, Clodomir Andrade, Faustino Teixeira, Ana Lúcia Portes, Carolina Bezerra, Márcia Oliveira e Dartagnan Abdias.

Outras maneiras de conhecer o mundo
Concomitantemente aos dias iniciais da COP30, a temática do congresso surge da necessidade urgente de buscar reflexão e transformação das relações que cultivamos com a Terra e com todas as formas de vida humanas e não humanas que nela habitam, diante do contexto global de mudanças climáticas e problemas socioambientais crescentes. Trata-se de buscar alternativas para a crise civilizatória que vivemos e de refletir sobre o papel exercido pelas religiões e espiritualidades nesse contexto.
O GT Epistemologias Ancestrais, um dos 15 grupos de trabalho presentes no evento, nasce de uma perspectiva descolonial que compreende os impactos da colonização na produção de conhecimento do Sul Global, propondo o aprofundamento e a valorização dos saberes produzidos por povos e tradições não ocidentais, como as ameríndias e afro-brasileiras. Entende-se que esses conhecimentos tradicionais não devem aparecer apenas como objeto de estudo, tampouco como meras alegorias ou metáforas, mas como epistemologias legítimas que desafiam a lógica ocidental e a clássica divisão entre natureza e cultura.
O encontro contou com as apresentações de Paulina Valamiel (doutora em sociologia pela UFMG e cofundadora do Hijas del Sur, rede latino-americana de mulheres psicodélicas), que dissertou sobre ayahuasca e menstruação a partir das experiências de mulheres daimistas; Alessandro Campolina (médico da FMUSP) e Karla Perdigão (psicóloga); Thiago Novaes (doutor em antropologia pela UnB), da equipe do NEP (Núcleo de Ensino e Pesquisa do LIS (Lar e Integração do Ser), centro vegetalista sediado em Areal, Rio de Janeiro), que falaram sobre o saber das plantas mestras e o método da tecnografia.
Também participaram Saulo Schetini (doutorando em ciência da religião pela UFJF), que discutiu a hipótese dos enteógenos como veiculadores de saberes ambientais, questionando o conceito tradicional de ecologia; Thalita Merighe (mestranda em ciência da religião pela UFJF), que apresentou suas pesquisas e vivências sobre o umbandaime; Erik Martins (doutorando em ciência da religião pela UFJF), que contribuiu com uma análise das categorias de cuidado e feminino no trabalho das benzedeiras da cidade de Janaúba (MG); e, por fim, Vinícius Couto (mestrando em ciência da religião pela UFJF), que compartilhou reflexões sobre as reatualizações identitárias dos raizeiros e raizeiras, propondo esses sujeitos como guardiões de epistemes ancestrais.

Entre plantas mestras, território e cuidado
A partir desses debates, o GT Epistemologias Ancestrais evidenciou que a crise ecológica contemporânea não pode ser enfrentada apenas por soluções técnico-científicas, mas exige uma reorientação profunda dos modos de existir, ensinar, transmitir e aprender. Ao mesmo tempo, destacou-se que o crescente interesse global por práticas espiritualistas, plantas de poder e cosmologias originárias tem sido frequentemente capturado pelo mercado e pela indústria do wellness, que transformam saberes de resistência em produtos consumíveis, estetizados e politicamente esvaziados.
Essa romantização, ao dissociar as epistemologias ancestrais de seus contextos históricos de violência colonial, luta territorial e autodeterminação, produz versões higienizadas que reforçam o exotismo e eliminam seu caráter insurgente. Assim, ao se pensar no potencial ecológico desses saberes, isto é, em sua capacidade de oferecer alternativas centradas nas comunidades, no cuidado e na interdependência, é fundamental reconhecer que não se trata de sistemas fixos ou idealizados, mas de epistemologias fronteiriças, tensionadas e continuamente negociadas com os resíduos da colonização e com os imperativos do capitaloceno. Trata-se, portanto, de compreender que seu potencial transformador reside justamente na complexa combinação entre ancestralidade, resistência e reinvenção diante de um mundo em colapso.
Nesse sentido, o GT contribuiu para ampliar o escopo das discussões normalmente realizadas dentro da ciência da religião, que muitas vezes se concentram em cosmologias judaico-cristãs. Ao mesmo tempo, os debates trouxeram uma nova chave de análise para discussões muitas vezes restritas a um campo psicodélico marcado pela lógica biomédica. Nessa direção, o momento foi marcado por diálogos que desestabilizaram fronteiras disciplinares e convocaram o campo acadêmico a dialogar com cosmologias que desafiam o paradigma moderno, dualista e extrativista.
Espera-se desse encontro fértil a criação de novos diálogos e perspectivas que promovam caminhos multidisciplinares e fortaleçam uma ecologia de saberes comprometida com a justiça ambiental, racial, de gênero e de classe; com a reparação histórica; e com a dignidade dos povos que guardam essas epistemologias. Que os debates iniciados nesta nona edição do Conacir sigam reverberando para além do evento, inspirando pesquisas, práticas e alianças que reconheçam o valor político, ético e cosmológico das tradições do Sul Global em um mundo atravessado por crises simultâneas.
Paulina Valamiel, Erik Martins Silva, Vinicius Couto e Saulo Schetini, colaborador da Psicodelicamente, integram a comissão organizadora do GT Epistemologias Ancestrais.





