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Apocalipse ayahuasqueiro

Politização da fé pela extrema direita é tema de filme que foca evangélicos, mas ignora outras religiões cooptadas pela teologia do domínio, como o grupo ayahuasqueiro UDV, hoje em crise

Por Aemulus Maximus e Carlos Minuano, para a Psicodelicamente

Foto: Reprodução

Nos últimos anos, a UDV (União do Vegetal) tem adotado discursos e posturas cada vez mais próximos do bolsonarismo. Esse movimento, que gera tensões internas na instituição, encontra ecos em “Apocalipse nos Trópicos”, novo documentário de Petra Costa. Embora o filme não mencione diretamente o grupo religioso ayahuasqueiro fundado nos anos 1960, e tenha como foco o avanço evangélico sobre a política brasileira durante o governo Bolsonaro, oferece pistas valiosas para compreender os rumos ideológicos da doutrina e sua aproximação com a chamada teologia do domínio.

O documentário, lançado em 190 países e disponível na Netflix, vai além de denunciar a influência evangélica: é um alerta sobre como projetos teocráticos podem desestabilizar democracias frágeis. Ao vincular teologia apocalíptica, ambição política e crise social, a diretora Petra Costa traça um retrato urgente de um Brasil radicalizado, marcado por atores de extrema direita impulsionados pela burguesia financeira. O filme expõe um projeto político-econômico baseado no Estado mínimo e na retirada de direitos sociais e trabalhistas, que afeta sobretudo os segmentos mais vulneráveis da sociedade: trabalhadores urbanos e rurais, subempregados, estudantes, indígenas, idosos, entre outros.

Ao focar no segmento evangélico e na chamada “teologia do domínio”, o filme deixa de evidenciar que a politização da fé sob a ótica da extrema direita também atingiu outras tradições religiosas. No campo da ayahuasca, esse movimento impactou especialmente a UDV, maior instituição do país dedicada ao uso ritual da bebida psicodélica.

A teologia do domínio

Conhecida como “dominionismo”, a teologia do domínio é uma corrente teológico-política que defende a submissão da vida pública aos princípios do cristianismo. Seus seguidores pregam que líderes religiosos devem ocupar posições de poder e influenciar diretamente as estruturas do Estado. Está associada a uma agenda de economia liberal, defesa do Estado mínimo, discurso anticientífico e negacionismo, como se viu durante a pandemia de Covid-19.

No contexto brasileiro, a teologia do domínio se manifesta no apoio ao governo Bolsonaro (2019–2022), que foi apresentado por líderes religiosos como um “ungido” para implantar um projeto cristão fundamentalista. A estratégia inclui a ocupação de cargos públicos por religiosos e a promoção de pautas como “escola sem partido”, combate ao chamado “marxismo cultural”, defesa de costumes ultraconservadores, com discursos homofóbicos, misóginos e intolerantes à diversidade, além de uma retórica antiambientalista e o lema moralista “Deus, pátria e família”.

A crise interna na UDV

O ano de 2018 marcou uma guinada na trajetória da UDV (União do Vegetal), com a crescente politização da religião e a adesão explícita de muitos de seus principais líderes à agenda da extrema direita. Tornaram-se ativistas bolsonaristas e passaram a adotar, em suas manifestações públicas, o conjunto de pautas ideológicas associadas ao governo de Jair Bolsonaro, frequentemente descritas como autoritárias e com traços de inspiração nazifascista.

Embora a UDV não possa ser classificada, em sua totalidade, como uma instituição de extrema direita, o alinhamento político de figuras proeminentes com ideias antidemocráticas provocou uma crise interna sem precedentes. Estima-se que cerca de 5 mil sócios tenham deixado a entidade nos últimos anos, em um universo de 25 mil filiados (dado não oficial).

Houve, de forma declarada, o envolvimento de líderes da UDV com o bolsonarismo e com atos de caráter golpista. Um dos casos mais emblemáticos é o de Raimundo Monteiro de Souza, uma das principais lideranças da instituição, considerado “mestre da recordação” e sucessor de José Gabriel, o fundador da UDV. Em 2022, ele enviou uma carta ao Alto Comando das Forças Armadas exigindo uma intervenção militar para impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), sob o argumento de conter o “avanço do comunismo”.

Atos antidemocráticos

Dirigentes da UDV, como Raimundo Monteiro de Souza, Clóvis Cavalieri (ex-mestre geral) e Francisco Joffily (mestre do Núcleo Vento Divino, na Bahia), participaram de atos antidemocráticos após as eleições de 2022. Os três foram fotografados em acampamentos golpistas montados em frente a quartéis do Exército. Em uma das imagens, membros da UDV aparecem uniformizados e perfilados diante de um desses acampamentos. Segundo informantes, a foto foi registrada em Campo Grande (MS), logo após uma “sessão instrutiva”. Há relatos de que, na ocasião, filiados do núcleo local foram dispensados de suas escalas de trabalho para participar da vigília em frente ao quartel.

O mestre Francisco Joffily teve participação ativa nos ataques de 8 de janeiro de 2023, em Brasília. Emocionado, chegou a enviar vídeos online exaltando os atos violentos, criando, com isso, provas contra si mesmo. À época, a UDV era liderada por José Carlos Garcia, então Mestre Geral Representante (MGR), que determinou seu afastamento da comunhão do Vegetal. No entanto, em 2023, já sob a gestão de Jair Gabriel da Costa, filho do fundador da UDV e alinhado ao bolsonarismo, Joffily foi reintegrado à instituição.

Segundo fontes da UDV ouvidas em off, a rápida reintegração de Francisco Joffily ao quadro de mestres teria uma explicação. Há relatos de que ele ameaçou expor nomes de financiadores de atividades golpistas dentro da instituição, incluindo associados de alto poder aquisitivo. Ainda de acordo com essas fontes, mestres influentes teriam custeado passagens e despesas de filiados que participaram dos atos em Brasília, embora essas informações não tenham sido comprovadas judicialmente.

Partido armamentista

Um dos exemplos mais emblemáticos da instrumentalização da religiosidade ayahuasqueira por interesses políticos extremistas é o do empresário e dirigente da UDV Luís Felipe Belmonte. Ex-mestre geral, ele ocupa até hoje posição de destaque na hierarquia da organização.

Ligado ao projeto do partido Aliança pelo Brasil, idealizado por Jair Bolsonaro, Belmonte articulou a coleta de assinaturas para sua criação. Embora o partido nunca tenha sido formalizado, seu estatuto defendia explicitamente a posse e o porte de armas como princípio fundamental, pregando também o “respeito aos valores familiares” e a “legítima defesa”. Essa agenda estava alinhada à retórica bolsonarista de que o armamento civil servia para proteger contra violência e o que era chamado de “comunismo”

Como vice-presidente e principal articulador do Aliança pelo Brasil, Luís Felipe Belmonte coordenou a coleta de assinaturas para a criação do partido. Em declarações públicas, defendia o armamento civil como parte de um projeto de “segurança nacional”, associando-o ao combate ao Foro de São Paulo (organização criada nos anos 1990 por partidos de esquerda latino-americanos, frequentemente citada por setores conservadores como símbolo de um suposto complô comunista) e a ideologias de esquerda. Seu discurso reforçava a retórica bolsonarista de que a defesa pessoal seria um dos pilares da liberdade individual.

Poder, controle e silêncio na UDV

Além de sua atuação partidária, Luís Felipe Belmonte foi investigado pela Polícia Federal por suspeita de usar sua influência política para beneficiar garimpos ilegais em Rondônia, atividade frequentemente associada a milícias armadas. Também admitiu ter pago R$ 9,5 mil para reformar o escritório de Jair Renan Bolsonaro, filho do então presidente, em episódio que levantou suspeitas de tráfico de influência. 

Durante a gestão do mestre geral José Carlos Garcia, chegou a ser afastado de cargos diretivos na UDV. Com a ascensão de Jair Gabriel da Costa, foi reabilitado e voltou a ocupar posição de destaque na direção da entidade. Desde então, a instituição passou a adotar rígidos mecanismos de controle sobre os filiados. Tornou-se comum e pública a punição de sócios por simples interações em redes sociais, como curtir postagens de dissidentes. O advogado Sanderson Moura, por exemplo, foi advertido por estar lendo um livro de filosofia, fora de contexto ritual.

Apesar do fracasso do partido Aliança pelo Brasil, idealizado por Bolsonaro, Belmonte manteve atuação política ativa. Em 2022, candidatou-se a vice-governador do Distrito Federal, mas obteve apenas 7,4% dos votos. Dos 22 candidatos que apoiou ou financiou, apenas dois foram eleitos. Mesmo com os reveses eleitorais, continua influente como estrategista de um projeto conservador com forte apelo ao armamentismo e à retórica da extrema direita.

Divisões internas

A crescente politização da UDV desde 2018 aprofundou divisões internas. Em núcleos espalhados pelo país, multiplicam-se relatos de mestres utilizando o espaço ritual para discursos com pautas ultraconservadoras. Armamentismo, homofobia, misoginia e intolerância à diversidade deixaram de ser exceções toleradas para se tornarem frequentes na fala de líderes durante os trabalhos. 

Hoje, a instituição abriga duas correntes em tensão: uma conservadora, ligada a empresários e simpatizantes do ultraliberalismo, e outra mais progressista, formada por trabalhadores, artistas e profissionais liberais. Apesar da resistência de dissidentes e ex-filiados, o grupo ultraconservador segue no comando, com mão firme. A mobilização por mudanças internas é considerada, por muitos, infrutífera, mas ainda assim, alguns insistem.

Chama atenção, nesse cenário, o fato de que, mesmo diante de rupturas e frustrações, a UDV não tenha gerado um movimento consistente de dissidência institucionalizada. Muitos ex-membros relutam em criar novas agremiações, apesar de manterem vínculo afetivo e devocional com os ensinos do fundador José Gabriel da Costa, o mestre Gabriel. 

Enquanto a crise interna se aprofunda, os que discordam seguem dispersos. E a UDV, sob a atual direção, permanece fechada e silenciosa, mas avança na consolidação de seu alinhamento ideológico à direita.

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