O que acontece quando um cineasta deixa de sonhar? Foi a partir dessa inquietação que o diretor Marcelo Gomes iniciou uma investigação sobre o apagamento dos sonhos na vida contemporânea, primeiro em si mesmo, depois no mundo ao seu redor. Em “Criaturas da Mente”, ele transforma esse vazio onírico em ponto de partida para uma jornada de escuta e descoberta, guiada pelo neurocientista Sidarta Ribeiro, referência mundial nos estudos sobre sonhos, memória e psicodélicos.
Autor de “O oráculo da noite” (Companhia das Letras), Ribeiro leva para o filme muito da pesquisa desenvolvida no livro, explorando as múltiplas formas pelas quais culturas tradicionais, a ciência moderna e os psicodélicos acessam o mundo invisível da mente. Dos sonhos do povo xavante às experiências com DMT em laboratório, da jurema à ayahuasca, da memória à imaginação, ele costura uma ampla teia de saberes e práticas que desafiam a separação entre razão e espiritualidade.
“É paradoxal que alguém que trabalha com imagens não consiga mais sonhar”, observa o neurocientista no filme, ao comentar a condição do diretor, que serviu de impulso para a investigação de “Criaturas da Mente”. O documentário propõe um diálogo entre ciência, saberes ancestrais e substâncias psicodélicas como pontes de acesso ao inconsciente.
Lançado há mais de dois meses, o filme segue em cartaz em cidades como Rio de Janeiro, Niterói, São Paulo e Salvador, e já foi assistido por mais de 8,8 mil espectadores nos cinemas.
Psicodélicos como chave de acesso
E se existissem outras formas de acessar o inconsciente e flexibilizar padrões mentais rígidos? Essa foi uma das perguntas e também uma das provocações que nortearam a construção do filme de Marcelo Gomes (Cinema, aspirinas e urubus). Uma dessas possíveis chaves é a ayahuasca, bebida psicodélica amazônica, como explica no documentário o neurocientista Dráulio de Araújo, referência mundial nas pesquisas com substâncias alucinógenas.
Segundo o pesquisador, a beberagem pode ajudar a criar novas possibilidades mentais. “Você fecha os olhos e os pensamentos aparecem com força. É como ver os próprios pensamentos”, afirma Araújo. Ele reflete sobre os possíveis efeitos terapêuticos dos psicodélicos, especialmente em casos de depressão resistente, seu principal campo de estudo. Um dos sintomas mais recorrentes da doença, prossegue o neurocientista, é o pensamento ruminativo: negativo, circular, incessante. Para muitos, trata-se de uma espécie de prisão mental da qual é difícil escapar.
Ao longo do filme, o neurocientista Dráulio de Araújo analisa exames de neuroimagem que comparam a atividade cerebral com e sem o uso da ayahuasca. “O cérebro com ayahuasca mostra um aumento significativo de conexões entre áreas que normalmente não se comunicam. É como se ele funcionasse de maneira mais flexível”, explica.
Essa maleabilidade pode ser uma chave para romper o ciclo ruminativo típico da depressão. “Como eu consigo me livrar desses pensamentos ruminativos? Criando outras possibilidades, dando mais liberdade para o sistema pensar e ver outras coisas.”
Apesar do entusiasmo com os resultados, ele faz uma ressalva: “Os psicodélicos não são uma bala de prata que vai curar todas as pessoas, mas podem entrar como uma alternativa.”
O sonho como instituição
O escritor e líder indígena Ailton Krenak, que também participa do filme, destaca que, para o povo xavante, o sonho é uma verdadeira instituição, em contraste com outras culturas, onde sonhar é apenas uma entre várias formas de perceber a realidade.
Durante o ritual do Wai’a Rini, os jovens são submetidos a experiências intensas, como sofrimento físico e desmaios, para acessar visões do futuro. “Quem não sofre bem, não sonha bem”, diz um dos depoentes. Entre os xavante, é por meio dos sonhos que se transmitem cantos, nomes, conhecimentos medicinais e o contato com os mortos. É o sonho que estabelece a ligação entre o mundo espiritual e o plano terreno.
Esse olhar sobre o sonho também é reforçado por líderes espirituais como Mãe Beth de Oxum, que denuncia a desvalorização do conhecimento ancestral. “Criminalizaram os saberes das nossas mães, avós, bisavós. Quem sabe das coisas agora é só a indústria. Mas a medicina tem que aprender conosco. Precisamos aproximar os saberes científicos e populares.”
Krenak defende o sonho como espaço de aprendizado e resistência. “Sonhar, habitar esse lugar, radicalizar nele.”
Entre o onírico e o científico
A ciência começa, enfim, a se debruçar sobre territórios que antes pareciam mágicos demais. Mas, como lembra Sidarta Ribeiro, durante décadas estudar sonhos era um tabu na academia. O mesmo se aplicava aos psicodélicos. “Você era maluco se estudasse isso.”
Hoje, laboratórios como o de Dráulio de Araújo, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), investigam com rigor os efeitos da ayahuasca e da jurema em tratamentos para transtornos mentais como depressão e ansiedade.
Ao final, “Criaturas da Mente” não oferece respostas fáceis, mas propõe perguntas profundas. O que perdemos ao parar de sonhar? Que pontes estamos deixando de atravessar entre corpo, mente e espírito? E de que maneira os psicodélicos, junto aos sonhos, às tradições e à escuta, podem nos ajudar a recuperar o diálogo com o inconsciente?
No entrelaçamento entre ciência, mito e experiência, o filme se torna um convite a lembrar que somos, talvez, feitos da mesma matéria dos sonhos.





