“Yahuarcani usa a pintura como um meio de honrar sua ancestralidade e denunciar injustiças históricas”, diz Amanda Carneiro, curadora da mostra Santiago Yahuarcani: o princípio do conhecimento, em cartaz no Masp, em São Paulo, até agosto.
O artista peruano, do povo indígena Uitoto, que habita a região amazônica entre o sul da Colômbia e o norte do Peru, conhece de perto a violência histórica que atravessa sua obra. Yahuarcani é neto de um dos sobreviventes do genocídio de Putumayo, ocorrido entre 1879 e 1912, quando a exploração da borracha levou ao assassinato de cerca de 30 mil indígenas.
Mas sua pintura não se limita à denúncia. Ela também afirma um outro modo de conhecimento, enraizado na relação com plantas e entidades espirituais que estruturam a cosmologia uitoto.
Essa é uma camada da exposição que dialoga com debates contemporâneos no campo antropológico e psicodélico: a ideia de que plantas não são objetos ou recursos naturais a serem explorados, mas sujeitos de conhecimento. Nos trabalhos de Yahuarcani, essa perspectiva aparece como experiência vivida.
As 35 obras reunidas no Masp estão estruturadas em dois eixos temáticos. De um lado, elaboram a memória da violência do ciclo da borracha. De outro, apresentam uma visão de mundo em que natureza, espiritualidade e conhecimento formam um mesmo tecido.
A cosmologia indígena aparece com força nos núcleos dedicados às plantas sagradas e aos mundos espirituais. Em vez de símbolos, plantas como a coca e o tabaco surgem como agentes ativos, mediadores entre diferentes planos da existência.
A obra que dá nome à exposição apresenta, no centro, uma folha de coca com traços humanos, de sua boca surge uma folha de tabaco. A imagem remete ao mito de origem uitoto, no qual a entidade Buinaima transmite conhecimento ao seu povo por meio dessas duas plantas, utilizadas em contextos rituais e medicinais como forma de comunicação com o divino.

Nos trabalhos do artista, não há uma separação rígida entre humano e não humano. Animais, rios, plantas e entidades espirituais coexistem em um mesmo campo relacional, onde o conhecimento emerge da interação.
Essa perspectiva encontra eco em discussões atuais que questionam a centralidade humana na produção de conhecimento. Ao deslocar o olhar para uma rede de relações entre espécies e dimensões da existência, a obra de Yahuarcani se aproxima de um pensamento que reconhece agência, inteligência e memória na natureza.
Trauma coletivo
Ao mesmo tempo, a exposição não evita o confronto com a violência. O chamado “tempo do choro de sangue”, nome dado pelos uitotos ao período da borracha, aparece em cenas que evocam perseguição, destruição e ruptura.
“O tempo da borracha foi o choro de sangue. É assim que nós, uitotos, chamamos esse período, porque foi muito cruel. Nós, descendentes, sentimos essa dor, pois foi a destruição da nossa cultura”, diz Yahuarcani.
Corpos em queda, figuras em tensão e atmosferas densas traduzem visualmente esse trauma coletivo que atravessa gerações.
Essa justaposição entre cosmologia e trauma não é casual. Ao colocar lado a lado esses dois planos, o artista sugere que o impacto do extrativismo não foi apenas territorial ou físico, mas também espiritual, atingindo formas inteiras de viver e produzir conhecimento.
Esse princípio também atravessa a materialidade da pintura. Yahuarcani utiliza a llanchama, feita a partir da casca de árvores amazônicas, como suporte. Mais do que uma escolha estética, o gesto reforça a relação direta com a floresta, entendida não como recurso, mas como entidade viva, guardiã de conhecimento e de história.
Inserida na programação do Masp dedicada às histórias latino-americanas, a mostra também dialoga com um movimento mais amplo de visibilização de artistas indígenas contemporâneos.

SERVIÇO:
Masp – Av. Paulista, 1.578, Bela Vista, região central.
De 7/4 a 2/8. Ter., das 10h às 20h. Qua. e qui., das 10h às 18h. Sex., das 10h às 21h. Sáb. e dom., das 10h às 18h.
Ingr.: R$ 85 (inteira) em masp.org.br/ingressos
Grátis às terças (10h às 20h) e sextas a partir das 18h





