Entre os dias 23 e 26 de março de 2026, o Centro Diocesano de Cruzeiro do Sul, no Acre, sediou o Seminário Aliança Transfronteiriça em defesa dos Povos, das Águas e das Florestas Amazônicas. O encontro reuniu mais de 100 lideranças indígenas de 14 povos da região de fronteira entre Brasil e Peru, além de pesquisadores, técnicos, organizações da sociedade civil e representantes do poder público.
Promovido pela Comissão Transfronteiriça (CT) Yuruá, Alto Tamaya e Alto Juruá, articulação criada em 2021 por povos como Ashaninka, Arara, Kuntanawa, Huni Kuĩ, Yaminahua e Amahuaca, o seminário teve como foco a denúncia de violações de direitos e a construção de estratégias conjuntas para enfrentar a crise socioambiental na Amazônia.
Durante o evento, foram discutidas ameaças que se intensificam na região, como o desmatamento, o avanço do garimpo ilegal, a exploração madeireira, queimadas criminosas, invasões territoriais e a atuação do crime organizado e do narcotráfico.

Também entraram na pauta os impactos das mudanças climáticas, os riscos a povos indígenas isolados e a realização de grandes projetos de infraestrutura sem consulta prévia às comunidades afetadas, como a abertura de uma ligação rodoviária entre o Acre e o Peru, que pode afetar áreas de conservação e terras indígenas.
As lideranças destacaram a fragilidade na garantia de direitos e defenderam a ampliação de mecanismos de proteção, com ênfase na cooperação entre os governos de Brasil e Peru. Um dos exemplos citados foi a decisão do tribunal de Nauta, no Peru, que reconheceu o rio Marañón como sujeito de direitos, atribuindo ao povo Kokama o papel de guardião legal do território. A medida foi apontada como referência para o fortalecimento da governança indígena na região amazônica.
As discussões também evidenciaram dificuldades na efetivação de direitos já reconhecidos, com críticas à ausência do Estado nas áreas de fronteira. “É um direito assegurado na lei, mas negado diariamente”, disse Francisco Piyãko, da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (Opirj).
Lideranças indígenas da Amazônia peruana também relataram o avanço de atividades ilegais associado à abertura de rotas na floresta. Monitoramentos indicam aumento do desmatamento ligado à mineração ilegal, à instalação de pistas de pouso clandestinas e a outras dinâmicas ilícitas. Comunidades denunciaram invasões territoriais e pressões sobre limites de terras em região marcada pelo assassinato de quatro lideranças Ashaninka em 2014.

“Defendemos nossas terras, muitas vezes arriscando a vida, e exigimos, como protagonistas na defesa da vida e do planeta, reciprocidade, respeito e garantias efetivas de direitos”, afirmou Jamer Magno López Agustin, presidente da Orau (Organização Regional Aidesep Ucayali). Segundo ele, a articulação entre conhecimentos indígenas e ciência é central para enfrentar as ameaças que incidem sobre o território.
Ao final do seminário, os participantes reforçaram a importância de alianças transfronteiriças como estratégia para a proteção dos territórios, da biodiversidade e dos modos de vida indígenas diante do avanço das pressões econômicas e ambientais na Amazônia.
A Comissão Transfronteiriça é composta por organizações indígenas e socioambientais dos dois países, entre elas Opirj (Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá), Aconadiysh (Asociación de Comunidades Nativas Para el Desarrollo Integral del Yurua), Apiwtxa (Associação Ashaninka do Rio Amônia ), Fephac (Federação do Povo Huni Kuĩ do Acre), além do Instituto Yorenka Tasorentsi, fundado pelo líder indígena Benki Piyãko.
Edição de Carlos Minuano, com informações do g1.





