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Livro sobre terapia psicodélica com cetamina é lançado em SP

Obra com selo da Faculdade de Medicina da USP será tema de debate com autores sobre uso terapêutico da substância na Livraria da Vila, dia 17

Carlos Minuano, para a Psicodelicamente

Foto: Unsplash

O livro “Terapia Psicodélica com Cetamina: implicações clínicas para o cuidado em saúde” (Manole), organizado por Alessandro Campolina, Angela Sousa e Rodrigo Leite, será lançado no próximo dia 17 de setembro, das 19h às 21h, na Livraria da Vila – unidade Fradique Coutinho, zona oeste de São Paulo. O evento contará com a presença dos autores em bate-papo mediado por este jornalista.

A obra representa um marco no campo das terapias assistidas por psicodélicos no Brasil. Reunindo contribuições de profissionais de diferentes áreas da saúde, o livro busca sistematizar práticas, revisar evidências e propor diretrizes para um uso responsável da cetamina em contexto clínico. A iniciativa é inédita dentro da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), instituição historicamente conservadora, mas que ao apoiar a publicação sinaliza uma abertura simbólica e científica para novas possibilidades de cuidado em saúde mental.

No prefácio, os autores lembram que os chamados “estados não ordinários de consciência” acompanham a humanidade desde a pré-história, despertando fascínio e temor em igual medida. Embora por muito tempo tenham sido vistos apenas como manifestações patológicas, pesquisas recentes vêm mostrando que, quando bem conduzidos, podem ter valor terapêutico. Nesse cenário, a cetamina ocupa lugar singular: é hoje o psicodélico com maior respaldo científico para aplicação clínica, situando-se à frente de outras substâncias que ainda permanecem em fase experimental, como a psilocibina (presente nos chamados “cogumelos mágicos”) e a MDMA (também conhecida como ecstasy).

O livro enfatiza que o potencial da cetamina vai além de seu efeito farmacológico como anestésico ou antidepressivo. Na chamada PAC (Psicoterapia Assistida por Cetamina), a substância funciona como catalisadora de processos subjetivos quando combinada a um acompanhamento psicoterápico estruturado. O diferencial, segundo os autores, está justamente na articulação entre molécula e método: preparação, condução segura e integração da experiência são etapas indissociáveis.

Aliás, vale aqui uma explicação. Embora o termo em inglês Psychedelic-Assisted Therapy/Psychotherapy (terapia ou psicoterapia assistida por psicodélicos, como descrito no parágrafo anterior) seja o mais consolidado na literatura científica, regulatória e também na mídia especializada, os autores do livro “Terapia Psicodélica com Cetamina” optaram por adotar, nos artigos da obra, a preposição “com” em vez de “por”. Segundo Campolina, a escolha da preposição “com” busca evitar uma valorização excessiva da substância e enfatizar o papel do terapeuta no processo.

“A ideia é que não é exatamente a substância que assiste nesse contexto terapêutico. São as pessoas, o terapeuta que faz esse processo de assistência”. Ele observa que, ao usar “por”, subentende-se uma relação de causa e efeito: a substância agindo sobre a psicoterapia, ou a psicoterapia agindo sobre a substância.

Para o médico, essa visão não corresponde ao que acontece na prática clínica. “O que entendemos é que não são dois processos distintos, mas um único processo em que existe um embricamento, uma relação de aliança e não de causa e efeito. Por isso, temos preferido usar a preposição ‘com’.”

Triagem clínica

Um dos eixos centrais do livro é a triagem clínica, etapa fundamental para garantir a segurança dos pacientes. São detalhados critérios de exclusão, como histórico de psicose, uso problemático de substâncias e determinadas condições cardiovasculares. A recomendação é que a avaliação médica e psicológica seja minuciosa e acompanhada de consentimento informado, com explicitação de riscos e expectativas realistas.

A pluralidade de perspectivas confere densidade ao trabalho. A publicação reúne 15 artigos escritos por mais de duas dezenas de autores. Esses textos percorrem desde reflexões sobre morte, vida e finitude, passando pelo “renascimento psicodélico” e sua relação com pacientes oncológicos, até análises sobre farmacologia, protocolos clínicos e aplicações em diferentes quadros, depressão resistente, risco suicida, dor crônica, transtornos de personalidade, estresse pós-traumático e dependência química. O livro também traz discussões sobre formação profissional e inserção da PAC no SUS (Sistema Único de Saúde). O resultado é um panorama que alia rigor científico, diversidade de olhares e aplicabilidade clínica.

Outro pilar é o setting terapêutico. O livro descreve a importância de um ambiente adequado, com monitorização clínica e equipe multidisciplinar treinada, capaz de lidar tanto com demandas emocionais quanto com intercorrências médicas. O manejo de efeitos adversos, como dissociação desconfortável ou recrudescimento de sintomas, também recebe atenção especial. Para os autores, não há cuidado de qualidade sem infraestrutura preparada e profissionais capacitados.

A etapa de integração é apresentada como parte estruturante da psicoterapia assistida por cetamina. Mais do que um momento reflexivo, trata-se de transformar vivências subjetivas em aprendizado concreto, com impacto em padrões de comportamento, relações interpessoais e qualidade de vida. Sem essa etapa, alertam os autores, a experiência se dissiparia como lembrança intensa, mas sem efeito terapêutico duradouro.

O livro também aborda dilemas éticos e regulatórios, como a medicalização apressada e o marketing que apresenta a cetamina como “molécula milagrosa”, chamando atenção para os perigos de um mercado que cresce mais rápido que a formação qualificada de profissionais. Ao mesmo tempo, reconhece o potencial da substância como recurso transdiagnóstico, capaz de auxiliar em quadros complexos como depressão resistente, transtorno de estresse pós-traumático, dor crônica e sofrimento existencial associado a doenças graves. 

O resultado é uma obra coletiva que combina experiência prática, rigor científico e compromisso ético. Mais do que um manual técnico, “Terapia Psicodélica com Cetamina” é um convite a pensar o futuro da saúde mental no Brasil sob a ótica da integração entre ciência, clínica e ética. Ao reconhecer tanto o potencial quanto os limites da substância, a obra se coloca como referência para profissionais, pesquisadores e leitores interessados em acompanhar um debate que tende a ganhar cada vez mais relevância nos próximos anos.

Serviço

Lançamento do livro “Terapia Psicodélica com Cetamina: implicações clínicas para o cuidado em saúde”
17 de setembro de 2025, das 19h às 21h
Livraria da Vila – Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena, São Paulo
Bate-papo com os editores Alessandro Campolina, Angela Sousa e Rodrigo Leite, mediado pelo  jornalista Carlos Minuano, fundador da Psicodelicamente

Carlos Minuano

Jornalista e escritor, há mais de duas décadas escreve sobre psicodélicos nos principais veículos jornalísticos do país, como nas revistas CartaCapital, Rolling Stone, jornal Metro. É colaborador do portal UOL desde 2012. Além de dirigir a Psicodelicamente, atualmente trabalha na pesquisa para um livro sobre psicodélicos, que será publicado pela editora Elefante. É autor de duas biografias, “Tons de Clô” (do estilista Clodovil Hernandes) em adaptação para uma série de streaming, e “Raul por trás das canções” (do músico Raul Seixas), ambas publicadas pelo grupo editorial Record.

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